amanheci assistindo ao jogo da copa entre coréia e alemanha, lavando a roupa suja que acumulava. após o jogo fui ao palácio dos capitães-generais, sede das secretarias de cultura e turismo de vila bela da santíssima trindade. fui recebida pelo senhor tito profeta da cruz e pelo sr. elízio ferreira de sousa, ambos naturais de vila bela, terceira ou quarta geração descendente dos escravos aqui trazidos pelos portugueses. pessoas extraordinárias, que relataram a história da cidade fundada para ser a primeira capital do mato grosso. em 1736 fundou-se o arraial de são francisco xavier no alto da serra da borda, primeira fixação luso-brasileira na região. em 1748 foi criada a capitania do mato grosso, e em 1752, após vários anos de peregrinações pela região, o capitão-general antônio rolim de moura escolheu o arraial de pouso alegre para fundar a capital vila bela da santíssima trindade. a comunidade teve seu auge entre 1771-79, com a extração de ouro e poder político. aqui viviam nobres portugueses, negros escravos e a santa igreja católica, além do índios da região que não eram civilizados nem incorporados à comunidade. com a mudança da capital para cuiabá, após o término dos conflitos de fronteira com os espanhóis, a cidade foi abandonada pelos portugueses, os ex escravos foram viver nos garimpos e apenas poucos deles permaneceram na vila, que foi durante muitos anos atacada pelos índios. durante este período, o acesso a vila se fazia pelo rio guaporé. foram muitos anos de isolamento. aos poucos os descendentes dos escravos nos garimpos foram retornando, mas o casario e a igreja já haviam sido, em sua grande parte, destruídos. em 1905 foram instaladas pelo marechal cândido rondon linhas telegráficas, e, no mesmo período, foram documentadas as principais edificações da vila. apenas na década de 70, vila bela da santíssima trindade foi inserida no contexto econômico regional. durante o período de abandono, padres visitavam a vila uma vez ao ano para oficializar casamentos, batismos e outras cerimônias. neste período eram realizadas as festas, que incluíam a dança do congo e do chorado. sr. tito e sr. elízio reuniram algumas fitas de vídeo com imagens destas festas, além de imagens das comemorações os 200 anos de vila bela, em 1952, com a visita de autoridades políticas e culturais da época, como assis chateaubriand. este ano estão comemorando 250 anos de fundação e todo mês tem uma festa com presenças ilustres e artistas consagrados, principalmente negros, como nana vasconcelos, martinho da vila, dentre outros. a região é belíssima, com cachoeiras de deixar o véu de noiva da chapada dos guimarães e itiquira, em goiás, com inveja. hoje o município já recebeu imigrantes de várias regiões do país, mas a preservação da cultura negra é cultivada por nativos como sr. tito e sr. elízio, que criaram associações que reúnem homens e mulheres em torno dos festejos. a dança do congo representa a luta entre dois povos, um comandado pelo rei outro pelo embaixador. a dança é uma performance comunitária, só de homens, similar às de goiás e suas festas do divino. a dança do chorado é realizada apenas por mulheres. na época da escravidão, os patrões portugueses, que não traziam suas mulheres para a vila, em noites de festa, chamavam as negras para dançarem para eles. estas, aproveitavam a ocasião para seduzir os patrões e pedir favores para seu filhos e companheiros, até mesmo a liberdade. sr. elízio explicou que o nome da dança descreve a dor das mulheres enquanto dançavam para seus patrões. hoje, a dança continua expressando a força de sedução das mulheres que se divertem provocando os homens. é tão divertido que o grupo fechado de 20 mulheres, umas com mais de setenta anos, não abre mão da dança e não permite a entrada de outras mulheres. para alguém entrar, alguém deve sair, e ninguém quer sair! este ano a festa será realizada em 18-19 de julho e infelizmente não poderei assistir.